Todos os anos, milhares de pessoas abandonam a Igreja Cristã Maranata. Mas, como revelou uma entrevista exclusiva com o pastor Júnior Magalhães, vice-presidente da Associação Amai-vos, o que acontece após essa saída está longe de ser simples. Segundo ele, há um padrão entre os ex-membros: transtornos psicológicos graves, sentimentos de culpa e dificuldade de reinserção na sociedade.
“A maioria das pessoas que saem da Igreja Maranata precisa de acompanhamento psicológico. Recebemos casos com diagnósticos de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e até transtorno bipolar”, afirmou Magalhães. A associação da qual ele faz parte presta apoio pastoral e psicossocial a ex-membros da Maranata que, segundo ele, chegam completamente “arrebentados”.
Durante a entrevista, o pastor contou que a igreja estimula uma cultura de medo: “Muitos saem acreditando que vão morrer em um acidente, adoecer gravemente ou ter suas vidas destruídas por saírem da instituição. Isso é uma forma de controle emocional”, declarou.
Outro ponto apontado é o uso seletivo da Bíblia. “Lá, a interpretação da Bíblia depende de uma tal ‘palavra revelada’. Sem essa revelacão, os textos são considerados letra morta. Isso destrói a autonomia espiritual dos fiéis e gera dependência total da liderança”, afirmou o pastor.
Segundo Magalhães, a humilhação de fiéis é comum em cultos e encontros de intercessão. “Mulheres são expostas, acusadas de estarem em pecado, ou culpadas pelo fato de seus maridos não ascenderem a cargos dentro da igreja. Isso acontece publicamente, mas sem citar nomes, o que piora ainda mais o trauma.” Ainda segundo ele, há vários relatos de que alguns pastores mantinham interesses pessoais por essas irmãs.
Assista a entrevista:
Doutrina de “servo devedor” e trabalho gratuito
A doutrina da Maranata também é alvo de críticas. Uma das mais polêmicas é a do “servo devedor”, que, segundo Magalhães, condiciona os fiéis a crerem que o sacrifício de Jesus não foi suficiente, sendo necessário “trabalhar” para agradar a Deus. “No Manaim, sede da igreja, as pessoas pagam para trabalhar em condições precárias. Jovens já morreram em serviço voluntário e a igreja se omitiu diante dos fatos”, disse.
O ex-pastor também criticou a estrutura de gestão da igreja, que segundo ele, é altamente centralizada no presbitério, sediado em Vila Velha (ES). “Todo o dinheiro arrecadado pelas igrejas locais vai para a sede, sem qualquer prestação de contas aos membros. Pastores locais trabalham de forma voluntária, enquanto alguns membros da liderança recebem salários que, corrigidos hoje, ultrapassariam R$ 40 mil.”
Outro tema polêmico abordado foram os “casamentos por revelacão”. “Muitas pessoas se casaram acreditando que Deus havia revelado aquele casamento. E o resultado disso, na maioria dos casos, foi o divórcio. Hoje, cerca de 80% dos casamentos feitos por revelacão estão desfeitos”, disse Magalhães.
Segundo o pastor, outro problema grave é o uso do sistema judicial para perseguir ex-membros que denunciam abusos. “Fui condenado por uma entrevista, usando trechos que estavam fora de contexto. Conheço dezenas de pessoas processadas pela igreja simplesmente por relatarem suas experiências.”
Problema de saúde pública
Magalhães defende que os impactos psicológicos gerados pela igreja devem ser tratados como questão de saúde pública. “Muitas pessoas saem destruídas. Algumas não conseguem mais trabalhar, dependem de auxílio do governo, têm problemas cognitivos sérios e vivem com medo do castigo divino.”
A Associação Amaigos, liderada por Júnior Magalhães e outros voluntários, oferece apoio pastoral e psicológico a ex-membros. “Nosso objetivo não é atacar a igreja, mas cuidar dos que estão saindo ou já saíram e não sabem como lidar com a dor”, finalizou.
A Igreja Cristã Maranata foi procurada para comentar as acusações, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.