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“Não quero a mão preta nas fotos”: Caso de racismo choca Assembleia de Deus

“Tem gente que dizia que negro nasceu pra ser escravo porque o crânio era pequeno," relembrou o pastor Osiel Gomes

Por Caio Rangel • Publicado em 22/05/2025 às 11h35
Pastor Osiel Gomes (Reprodução)

Durante sua participação na 66ª Escola Bíblica de Obreiros (EBO), promovida pela Assembleia de Deus em Pernambuco (IEADALPE), o pastor Osiel Gomes fez um comovente relato sobre a trajetória de seu pai, um pastor assembleiano negro, que enfrentou o preconceito racial enquanto servia em pequenas congregações pelo Brasil.

Com voz firme e emocionada, Osiel iniciou sua fala destacando suas raízes: “Sou filho de pastor, nascido e criado na Assembleia de Deus.”

O pastor contou que recentemente visitou uma igreja onde seu pai havia atuado décadas antes, e o reencontro com irmãs da congregação o levou às lágrimas ao ouvir histórias antigas de fé e superação. “Passei horas chorando e glorificando com elas. Elas me contaram coisas lindas sobre meu pai”, relembrou.

Ministério marcado por resistência e fé

Osiel relatou que seu pai pastoreou uma igreja pequena, com pouco mais de dez membros, onde o dízimo sequer era uma prática comum. Apesar das dificuldades, ele não recuou da missão e foi responsável por conduzir várias famílias à fé cristã.

Contudo, o ministério foi, por vezes, atravessado por episódios de racismo. Um deles ocorreu quando uma jovem da igreja completou 15 anos. Mesmo com o pai de Osiel como pastor titular da congregação, a família da adolescente preferiu convidar um pregador branco para conduzir a celebração.

A justificativa revelava o preconceito velado: “Eu não quero o pastor Bené no aniversário da minha filha, porque vai ter muita foto e não quero a mão preta dele aparecendo”, teria dito a mãe da aniversariante.

“Meu pai ficou abalado, mas manteve a postura”, contou Osiel. “Ele apenas respondeu: ‘Eu sou homem de Deus’”.

Perdão diante da rejeição

Anos mais tarde, o cenário se inverteu. A mesma família que rejeitou seu pai acabou se mudando para uma cidade onde ele já liderava outra igreja. Sem guardar mágoas, o pastor os acolheu com generosidade: ajudou na procura de moradia, ofereceu assistência e até mesmo cargos dentro da igreja. “Deu alimento, apoio, e fez o que estava ao seu alcance. Esse era o coração do meu pai”, afirmou Osiel.

Reflexões sobre o racismo histórico

Durante o discurso, o pastor também trouxe reflexões históricas, citando os escritos do Padre Antônio Vieira e outros pensadores que, no passado, defenderam ideias racistas, como a inferioridade intelectual de pessoas negras. “Tem gente que dizia que negro nasceu pra ser escravo porque o crânio era pequeno. Isso atravessou séculos e chegou até a América”, lamentou.

Racismo também na vida pessoal

Em tom mais íntimo, Osiel mencionou que o preconceito também se manifestou na esfera familiar, inclusive no relacionamento com sua esposa. Sem entrar em detalhes, ele contou que sua sogra, na época, demonstrou resistência à união, embora mais tarde tenha negado qualquer atitude racista. “Ela disse que nunca falou isso… mas naquela época era assim”, disse ele, tentando contextualizar a situação com compreensão, sem rancor.

Exemplo de fé inabalável

Encerrando seu testemunho, o pastor fez questão de exaltar a firmeza de líderes como seu pai, que, mesmo diante de rejeições dolorosas, jamais abandonaram o chamado. “Esses homens enfrentaram tudo com coragem. Era pesado… mas eles continuaram”, concluiu, sendo ovacionado por obreiros presentes no evento.



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