Em um vídeo gravado em português, inglês e espanhol, o pastor Silas Malafaia se posicionou publicamente contra a perseguição que, segundo ele, imigrantes trabalhadores têm sofrido nos Estados Unidos.
A fala veio acompanhada de citações bíblicas e um apelo direto aos pastores americanos, a quem acusou de “omissão vergonhosa”. Apesar do tom duro contra a política migratória, chamou atenção o fato de Malafaia poupar o ex-presidente Donald Trump de críticas diretas — mesmo reconhecendo que o endurecimento das ações migratórias se intensificou justamente durante sua gestão.
“Vem desde o governo Obama, Biden, intensificado agora no governo de Donald Trump”, disse o pastor, citando o nome do ex-presidente em tom neutro e sem responsabilizá-lo diretamente pela política de deportações que hoje afeta milhares de imigrantes latinos nos EUA.
Um discurso forte, mas com alvo seletivo
Durante sua fala, Malafaia reforça que não se opõe à expulsão de criminosos, mas sim à perseguição contra imigrantes trabalhadores e honestos.
Ele mostra trechos de vídeos em que agentes norte-americanos abordam e detêm pessoas em situação irregular, mesmo quando estão no exercício de suas atividades laborais. Em um dos trechos, é possível ver a indignação de testemunhas que questionam a falta de mandados e o trauma causado pela separação de famílias.
O líder evangélico também lembrou que tem familiares com cidadania americana, e reforçou seu amor pelos Estados Unidos, país que define como “fundado por imigrantes”. A crítica, no entanto, recaiu exclusivamente sobre a postura dos líderes cristãos norte-americanos: “Cadê os pastores americanos que têm influência no governo? Estão calados e omissos diante de tanta injustiça”, disparou.
Ver essa foto no Instagram
A omissão sobre Trump e a relação com a política evangélica
O que chama atenção é o silêncio estratégico de Silas Malafaia sobre Donald Trump. Embora tenha mencionado o ex-presidente como um dos responsáveis pela intensificação das deportações, não o responsabilizou diretamente pelas ações que critica. A pergunta inevitável é: por que o pastor, conhecido por seus posicionamentos firmes, evita confrontar Trump de forma direta?
A resposta pode estar no histórico de aliança entre o movimento evangélico brasileiro e o ex-presidente americano. Trump é visto por líderes religiosos como um defensor dos “valores cristãos”, principalmente por sua postura em relação a Israel, ao aborto e à liberdade religiosa.
Malafaia já defendeu Trump publicamente em outras ocasiões e, em seu vídeo, inclusive cobra coerência dos que defendem Israel, mas ignoram o sofrimento de imigrantes: “O que adianta defender Israel se, dentro das portas da casa de vocês, o imigrante trabalhador está sendo preso, vergonhosamente perseguido?”
Base bíblica e apelo espiritual
Para sustentar sua crítica, Malafaia recorreu a diversas passagens bíblicas. Citou textos de Deuteronômio, Mateus e até o episódio em que a família de Jesus foge para o Egito, apresentando Jesus como um exemplo de imigrante. “Não perverta o direito do imigrante”, afirmou, citando Deuteronômio 24:17. E finalizou com uma advertência espiritual: “Esses que fazem isso [perseguir imigrantes], diz o versículo 46, irão para o tormento eterno.”
Apesar do apelo emotivo e do esforço em mostrar empatia com os perseguidos, a fala de Malafaia reforça a dualidade existente no discurso político-religioso de líderes conservadores. Ao evitar confrontar diretamente Trump, ele preserva sua aliança ideológica com o ex-presidente americano, mesmo ao denunciar as consequências mais duras de sua política.
Repercussão
O vídeo gerou forte repercussão nas redes sociais, sobretudo entre brasileiros que vivem nos Estados Unidos. Muitos elogiaram a coragem do pastor ao denunciar a injustiça contra imigrantes. Outros, porém, questionaram a seletividade de suas críticas.
“Falar dos pastores americanos é fácil. Quero ver ter coragem de dizer com todas as letras que Trump é o responsável por essas políticas”, comentou um internauta. Outro afirmou: “Não adianta citar a Bíblia e se omitir de dizer o nome do verdadeiro autor dessa perseguição.”