Política

Damares Alves surpreende ao defender cotas sociais para travestis

Senadora afirma que travestis enfrentam dupla exclusão: pela sexualidade e pela pobreza

Por Caio Rangel • Publicado em 04/08/2025 às 11h24
Damares Alves (Reprodução)

A pastora e senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo Jair Bolsonaro (2019–2022), causou surpresa ao declarar apoio à adoção de cotas sociais para pessoas trans e travestis. A fala ocorreu durante sua participação no podcast Cortadas do Firmino, e marca um posicionamento inesperado dentro da ala conservadora ligada ao bolsonarismo.

“Tenho uma identificação muito grande com as travestis. É muito fácil conseguir emprego para um gay, para uma lésbica, para um trisal. Mas a travesti, pelo jeito exuberante dela, você não encontra num banco, numa loja. Elas não estudam, não trabalham. São duplamente vulneráveis: pela sexualidade e pela pobreza”, afirmou.

A senadora disse ainda que defende cotas sociais específicas para esse grupo devido à exclusão histórica enfrentada, especialmente no acesso à educação e ao mercado formal de trabalho. A fala contrasta com o discurso predominante entre parlamentares bolsonaristas, que frequentemente se posicionam contra ações afirmativas voltadas à população LGBTQIA+.

O tema ganhou visibilidade recentemente com a decisão da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) de reservar vagas para pessoas trans, travestis e não binárias em seus cursos de graduação. A medida reacendeu o debate sobre inclusão e políticas afirmativas no ensino superior.

Relação com Bolsonaro e histórico na pauta LGBTQIA+
Apesar da postura conservadora adotada durante seu mandato como ministra, Damares afirmou que já tratava do tema desde a transição de governo, em 2018. Ela relatou ter se reunido com representantes do “movimento gay” à época para identificar prioridades e reconheceu que travestis eram o grupo mais negligenciado.

“Disse a eles: é um governo conservador, com políticas conservadoras. E eles me disseram: quem ficou para trás foram as travestis. E nós reconhecemos isso”, declarou.

Segundo Damares, o próprio Bolsonaro, frequentemente acusado de declarações homofóbicas, teria demonstrado sensibilidade ao ser apresentado a uma pesquisa sobre pessoas LGBTQIA+ encarceradas.

“Arrancamos lágrimas do presidente. Ele disse: ‘cuida desse povo’.”

Ainda assim, o governo Bolsonaro foi marcado por cortes e recuos em políticas voltadas à população LGBTQIA+, incluindo a suspensão de vestibulares exclusivos para pessoas trans em universidades públicas.

Damares tenta reposicionar discurso e amplia interlocução
Durante a entrevista, Damares também reforçou a ideia de que há pontos de convergência com o movimento LGBTQIA+, principalmente no combate à corrupção e à proteção da infância.

“O movimento gay quer a criança protegida. Nós temos pautas em comum. E trabalhamos em comum acordo.”

Ao defender cotas para travestis sob o argumento de vulnerabilidade social extrema, a senadora amplia sua interlocução com setores antes distantes de sua base eleitoral, ao mesmo tempo em que assume um discurso mais pragmático e menos ideológico.

A fala pode sinalizar uma tentativa de reposicionamento político dentro da direita, sem romper com o bolsonarismo, mas buscando abrir canais de diálogo com outras frentes sociais.



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