A recusa do bispo Oídes José do Carmo, presidente da Assembleia de Deus – Campo de Campinas, a uma emenda parlamentar de R$ 950 mil reacendeu o debate sobre o uso de recursos públicos em eventos religiosos. O valor, destinado ao congresso de jovens Conectados, havia sido indicado pela vereadora Leia Klebia (Podemos) e repassado à Associação Goiana de Atualização e Realização do Cidadão (Agarc), entidade sem vínculo com o meio evangélico.
A decisão do líder da AD Campinas de rejeitar o montante repercutiu no meio político e jurídico, levantando questionamentos sobre a legalidade e a legitimidade da operação.
Quem é a vereadora Leia Klebia
Leia Klebia é vereadora em Goiânia e integra o Podemos. Casada com o pastor Jorge Pereira, da Assembleia de Deus Jardim Mirabel, a parlamentar mantém relação próxima com o segmento evangélico da capital. Essa ligação reforça a interpretação de que a emenda de quase R$ 1 milhão foi pensada para atender a uma das maiores programações ligadas ao Ministério Madureira: o congresso Conectados, previsto para setembro, no Goiânia Arena.
O histórico político de Klebia mostra que não é a primeira vez que ela destina recursos para entidades relacionadas ao campo religioso. Em anos anteriores, direcionou valores a associações beneficentes evangélicas ligadas à própria Assembleia de Deus.
O caminho da emenda e a Agarc
O recurso de R$ 950 mil foi formalizado no Diário Oficial de Goiânia em 13 de agosto e transferido seis dias depois. A entidade escolhida para executar o projeto foi a Agarc, ONG que tradicionalmente atua em áreas como moradia popular, assistência social e qualificação profissional, mas sem experiência na realização de eventos religiosos.
De acordo com documentos oficiais, R$ 750 mil seriam aplicados em infraestrutura (palco, banheiros químicos e camarins) e R$ 133,5 mil em camisetas para os participantes do congresso.
A própria Agarc confirmou que a sugestão para executar a emenda partiu de uma reunião com a vereadora Leia Klebia, que teria incentivado a instituição a ampliar seu campo de atuação para eventos gospel.
A recusa do bispo Oídes e as repercussões
Ao retornar de viagem aos Estados Unidos, o bispo Oídes tomou conhecimento da destinação e anunciou publicamente que a Assembleia de Deus não faria uso do recurso. Em contato com a parlamentar, reforçou que a igreja não tem interesse em administrar verbas públicas nesse formato.
“A associação citada que faça uso para as finalidades que achar conveniente. A igreja não tem interesse na verba”, declarou.
A postura foi vista como uma forma de resguardar a imagem da denominação em meio a um cenário delicado: em julho, a Polícia Civil havia deflagrado operações contra ONGs suspeitas de irregularidades envolvendo emendas parlamentares, justamente por alteração de finalidade após o repasse.
A Secretaria Municipal de Articulação Institucional e Captação (Secap), responsável pela execução das emendas, afirmou não ter recebido, até agora, comunicação oficial sobre a desistência.
Impacto político e jurídico
Politicamente, o episódio expôs a relação entre parlamentares e igrejas evangélicas em Goiás. Enquanto parte da base religiosa interpretou a emenda como apoio legítimo ao congresso de jovens, juristas e críticos questionaram a pertinência de destinar quase R$ 1 milhão a uma ONG sem experiência na área.
O caso pode ainda ganhar novos capítulos no campo jurídico, já que se enquadra no contexto das investigações sobre repasses suspeitos em Goiânia. A recusa da igreja, nesse sentido, reforçou o cuidado de Oídes José do Carmo em manter a Assembleia de Deus fora de possíveis desgastes legais.