A Igreja Batista da Lagoinha em Alphaville, uma das filiais mais conhecidas da denominação, está sendo processada após um episódio envolvendo uma criança de apenas 11 anos durante um culto infantil. O caso, que tramita na Comarca de Atibaia (SP), foi movido pela advogada Renata Lemos Ferreira, mãe da menor, que pede indenização por danos morais e materiais.
Segundo a petição inicial, no dia 20 de julho de 2025, a filha da autora participou de uma atividade infantil na sede da igreja, conduzida pelo voluntário identificado como Jônatas Henrique. Durante o encontro, a menina teria sido constrangida a entregar todo o dinheiro que possuía em conta, no valor de R$ 16,00, sob a alegação de que quem não ofertasse estaria “roubando Jesus”.
A irmã da criança, de 13 anos, também presente, enviou mensagens alertando a mãe sobre o ocorrido: “Na igreja do papai eles pedem dízimo pras crianças. O cara falou que quem não desse dinheiro estaria roubando Jesus”, relatou.

Dinheiro entregue por medo de estar “roubando a Deus”
De acordo com a ação, a menor confirmou posteriormente que entregou todo o valor porque ficou com medo de estar roubando a Jesus. A advogada anexou ao processo um recorte do extrato bancário que comprova a retirada do montante no mesmo dia.
A petição destaca que a própria igreja disponibilizava maquininha de cartão e opção de PIX para que crianças pudessem realizar doações, ainda que desacompanhadas dos pais. Para a mãe, a prática configura pressão emocional e constrangimento em ambiente religioso, especialmente grave por atingir menores de idade civilmente incapazes.
O processo também menciona que, durante a aula bíblica, foi lido o texto de Malaquias 3:6-10, no qual a recusa do dízimo é descrita como “roubar a Deus” e motivo de maldição. A interpretação literal feita pela criança teria intensificado o medo de punição espiritual, levando-a a doar todo o dinheiro que possuía.
A advogada argumenta que a situação viola o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante proteção contra qualquer forma de constrangimento psicológico ou religioso. Também fundamenta o pedido nos artigos 186 e 927 do Código Civil, que tratam da responsabilidade por ato ilícito, e destaca que, mesmo voluntários, os monitores atuam em nome da instituição e, portanto, submetem a igreja à responsabilidade objetiva.
O valor pleiteado é de R$ 20.000,00 por danos morais, além da restituição dos R$ 16,00 doados. Para a autora, o montante é simbólico, mas assume grande relevância no universo infantil, já que se tratava da totalidade do dinheiro que a filha possuía naquele momento.
Ainda segundo a petição, o episódio representou abalo psicológico e espiritual, interferindo na relação da criança com a fé. “Trata-se de ato de coação emocional, incompatível com um ambiente cristão que deveria transmitir amor e não medo”, destaca o texto.
O caso surge em um momento de transição importante na Lagoinha Alphaville. Recentemente, o pastor André Fernandes e sua esposa, Quezia, anunciaram sua saída da liderança da igreja, decisão confirmada durante um culto em julho. A mudança foi marcada por uma despedida emocionada, em que Fernandes afirmou estar atendendo a um chamado apostólico para se dedicar ao ministério evangelístico fora do Brasil.
A coincidência entre a repercussão judicial e a saída do casal reforça o clima de atenção sobre a filial de Alphaville, considerada uma das mais prósperas da Lagoinha Global.