A recente escalada de ataques do pastor Silas Malafaia contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, acendeu um novo alerta para o papel que a liderança religiosa exerce no debate público. Conhecido por sua eloquência e posicionamento político firme, Malafaia vem intensificando declarações que ultrapassam a crítica democrática e avançam para o terreno do confronto direto com as instituições — especialmente com o STF.
A tensão aumentou após a decisão do ministro Alexandre de Moraes que determinou a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. A partir daí, o discurso do pastor passou a adotar um tom ainda mais agressivo: chamou Moraes de “ditador”, “criminoso” e “mentiroso” em vídeos publicados em suas redes sociais. Malafaia também convocou manifestações de rua e sugeriu abertamente o impeachment do magistrado, posicionando-se como um dos principais articuladores da ala religiosa bolsonarista.
A fé como escudo e espada
Mais do que um embate político, o que se vê é o uso contínuo da linguagem religiosa como legitimadora de um discurso de oposição. Em diversos momentos, Malafaia associa sua indignação política à vontade divina, utilizando passagens bíblicas, referências a “perseguições” para mobilizar sua base.
Esse tipo de narrativa coloca a fé em uma posição delicada: de consolo espiritual, ela passa a funcionar como combustível de mobilização ideológica. Ao fazer isso, Malafaia arrasta consigo uma parte expressiva da comunidade evangélica, transformando o púlpito em trincheira política e dividindo fiéis entre os que veem o Judiciário como inimigo da liberdade religiosa e os que defendem uma atuação institucional mais equilibrada.
Há também uma disputa simbólica em jogo. Quando Malafaia grita, ele fala como um pastor, mas atua como um líder de oposição. Isso levanta uma pergunta essencial: sua voz representa a vontade de Deus ou a indignação de um grupo político? Ao confundir os papéis, corre-se o risco de instrumentalizar o evangelho e enfraquecer a credibilidade da fé cristã diante da sociedade.
No cristianismo, há espaço para a denúncia profética — aquela que clama por justiça, que confronta o poder e que zela pelos valores eternos. No entanto, essa denúncia vem acompanhada de mansidão, humildade e discernimento. Quando o tom se torna estridente e o outro é reduzido a inimigo absoluto, o discurso perde sua força moral e se transforma em ruído político.
A questão não é se Malafaia pode ou não se posicionar. O problema está em como e com que intenção ele o faz. Quando lideranças espirituais apelam para o confronto direto, sem mediação, elas correm o risco de sacrificar o papel pastoral em nome de agendas partidárias.
Enquanto o país atravessa uma crise institucional delicada, a igreja deveria ocupar um lugar de equilíbrio, diálogo e reconciliação. Ao optar pelo caminho da provocação e do embate, Silas Malafaia coloca em xeque não apenas sua própria imagem, mas a de toda uma comunidade de fé que, em muitos casos, não se reconhece nesse discurso beligerante.