A expansão da Igreja Batista da Lagoinha para Madri, na Espanha, começou com entusiasmo, mas rapidamente se transformou em uma sequência de crises. Quase nove anos após sua implantação, a comunidade ainda luta para se estabilizar em meio a denúncias de abusos de poder, rupturas internas, problemas financeiros e sucessivas saídas de membros e líderes. Hoje, os cultos são realizados em uma sala de cinema alugada, enquanto antigos colaboradores relatam frustrações e dívidas deixadas pelo caminho.
A história começou com os pastores Julián e Lorraine Flores, ex-estudantes do seminário Carisma, em Belo Horizonte. Eles assumiram a missão de liderar a Lagoinha na capital espanhola após concluírem o curso e afirmarem ter recebido um chamado específico para o país. A escolha atendeu ao interesse da denominação em expandir sua presença internacional, aproveitando o fato de já estarem na Europa.

Com o passar do tempo, porém, a condução da igreja gerou insatisfação. Fiéis relatam que os líderes adotaram uma postura centralizadora, apoiada no discurso de que apenas eles recebiam direção divina para a comunidade. Houve relatos de pressões sobre jovens e solteiros para abandonarem estudos acadêmicos e se dedicarem integralmente às atividades da igreja, o que resultou em críticas sobre abusos psicológicos.
Na tentativa de consolidar sua presença, a Lagoinha levou para Madri o curso Carisma. Professores do Brasil foram convidados a ministrar aulas, entre eles o casal Cássio e Sílvia — ele ex-apresentador da Rede Super e ela professora de História da Igreja. Inicialmente vistos como apoio à formação de líderes, os dois se tornaram alvos de conflito quando os alunos perceberam divergências entre o conteúdo estudado e a prática da igreja local.
O episódio culminou na expulsão do casal da igreja e do apartamento alugado em nome da instituição. Sem tempo para encontrar outra moradia em um mercado imobiliário considerado um dos mais rígidos da Europa, Cássio e Sílvia se viram obrigados a viver provisoriamente em um bar alugado, que também passou a ser usado como espaço de culto, agora de outra denominação. A forma como foram afastados provocou a saída de diversos líderes e membros antigos.
As divergências se repetiram em outros episódios. Missionários que recebiam apoio mensal foram desligados após questionarem práticas adotadas em conferências, como a chamada “unção do riso”. Segundo relatos, eles foram convidados a se retirar diante da liderança, sem explicações posteriores à igreja. O resultado foi novo esvaziamento da comunidade e aumento da rotatividade de fiéis. Apesar da gravidade dos conflitos, visitas de líderes do Brasil, como o pastor Flavinho, não resultaram em mudanças que impactassem na gestão local.

Para sustentar a estrutura criada, Julián chegou a colocar todos os colaboradores da igreja em folha de pagamento. O acúmulo de despesas gerou dívidas consideradas altas e, sem recursos para manter os contratos, ele anunciou demissões em massa. Entre os dispensados estavam pessoas que viviam em imóveis alugados em nome da igreja e que tiveram prazo curto para deixar os apartamentos. A cantora Sara, grávida, foi uma das afetadas.
Para evitar que famílias ficassem desabrigadas, houve a promessa de assumir alguns aluguéis por até três meses, incluindo o do pastor Rafa e de sua esposa. Ainda assim, a situação agravou a saída de membros. Estima-se que cerca de 60% da comunidade tenha deixado a igreja após os episódios mais recentes.
Hoje, a Lagoinha em Madri sobrevive com cultos em um cinema alugado por evento, reunindo aproximadamente 300 pessoas, número que varia devido à alta rotatividade. Outros dois imóveis foram alugados pela instituição: um para atividades educacionais que passou por ampla reforma, mas não obteve autorização da prefeitura para uso religioso, e outro ao sul da capital, cujo contrato permanece ativo apesar de a igreja não conseguir arcar com os custos nem rescindir devido à multa considerada elevada.
O casal Julián e Lorraine permanece à frente da comunidade, agora sem o papel de supervisores de outras unidades europeias, função que perderam após as crises locais. Entre os membros mais antigos, o sentimento é de frustração diante da falta de respostas sobre as rupturas. Para os novos frequentadores, a rotina segue restrita aos cultos no cinema, enquanto a história recente da igreja ainda divide opiniões e deixa marcas no processo de expansão internacional da denominação.