SÃO PAULO (SP) — Um embate público entre dois líderes evangélicos de grande alcance digital reacendeu discussões centrais sobre ética cristã, limites doutrinários e presença da igreja na esfera social.
O pastor e terapeuta familiar Josué Gonçalves e o pastor Rodrigo Mocellin passaram a protagonizar um intenso debate nas redes sociais a respeito da participação de cristãos em casamentos homoafetivos.
Consciência cristã e preservação de vínculos
Josué Gonçalves defendeu que a decisão de comparecer ou não a esse tipo de cerimônia deve ser analisada à luz da consciência individual e do amor cristão. Para ele, discordar de uma prática não implica necessariamente rompimento relacional.
O pastor argumenta que o compromisso com o próximo exige maturidade espiritual e discernimento, não isolamento.
Baseando-se em Romanos 14, Josué sustenta que há situações em que a Bíblia orienta o cristão a agir conforme sua convicção pessoal diante de Deus, sem impor a própria consciência ao outro. Em sua visão, a manutenção do diálogo e do relacionamento pode ser um testemunho mais eficaz do que o afastamento.
Crítica à relativização doutrinária
Rodrigo Mocellin reagiu com firmeza à posição de Gonçalves, classificando-a como teologicamente equivocada e perigosa para a integridade da fé cristã. Segundo Mocellin, a simples presença em uma cerimônia de casamento representa, inevitavelmente, um ato de validação e celebração, o que tornaria impossível separar amor pessoal de endosso moral.
O pastor também contestou a aplicação de Romanos 14 ao tema, afirmando que o texto bíblico trata de questões secundárias da fé, como hábitos alimentares, e não de comportamentos que, segundo ele, são claramente definidos nas Escrituras como pecado. Para Mocellin, utilizar esse argumento seria uma falha exegética grave.
Igreja, cultura e identidade
Na avaliação de Mocellin, esse tipo de flexibilização abre caminho para o que ele chama de “cristianismo cultural”, no qual a igreja passa a se moldar às pressões sociais. Ele alerta que a conivência não gera arrependimento, mas enfraquece o testemunho público da fé cristã, produzindo o que descreve como uma “anestesia da consciência”.
O debate evidencia duas correntes cada vez mais visíveis no evangelicalismo brasileiro. De um lado, líderes como Josué Gonçalves defendem uma atuação pastoral orientada pelo diálogo, pela psicologia familiar e pela preservação de vínculos em um mundo plural.
De outro, pastores como Rodrigo Mocellin representam uma vertente mais rígida, que entende qualquer concessão como uma ameaça doutrinária e espiritual.
Mais que teologia, um sinal do futuro
A controvérsia vai além de uma divergência bíblica pontual. Ela antecipa como as igrejas evangélicas brasileiras tendem a se posicionar nos próximos anos diante de temas relacionados a direitos civis, cultura e Estado.
O confronto entre “acomodação estratégica” e “resistência dogmática” não apenas define rumos teológicos, mas também molda a influência social e política do evangelicalismo no Brasil contemporâneo.
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