BRASÍLIA (DF) — O debate sobre a profundidade das letras na música gospel contemporânea sinaliza uma curiosa inversão: enquanto críticos apontam mensagens rasas em alguns louvores, clássicos da MPB e do Rock Nacional afirmam sua imortalidade através de bases bíblicas explícitas.
O exemplo mais notório é “Monte Castelo”, da Legião Urbana, que transporta os escritos do apóstolo Paulo para o centro da cultura pop brasileira.
Lançada em 1989, a canção sinaliza uma simbiose entre os sonetos de Luís Vaz de Camões e o capítulo 13 de 1º Coríntios. Renato Russo afirma, logo no início, que “ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria”.
O texto escreve quase literalmente o versículo 1, onde Paulo descreve que, sem o amor, o homem não passa de um “bronze que soa” — algo sem relevância ou importância espiritual.
A letra sinaliza uma compreensão profunda da benignidade descrita pelo apóstolo. Ao cantar que “o amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”, Renato faz um resumo teológico dos versículos 4 a 7. A música afirma que o amor não suspeita mal e não se ensoberbece, combatendo o egoísmo que Paulo tanto advertiu aos coríntios.
O desfecho da canção sinaliza a esperança escatológica da fé cristã. Renato Russo encerra a obra fazendo referência ao versículo 12: “agora vejo em parte, mas então veremos face a face”.
O músico afirma a limitação do conhecimento humano sobre o amor divino no tempo presente, projetando o momento da manifestação de Cristo, onde conheceremos a plenitude do amor assim como somos conhecidos por Ele.
A análise de “Monte Castelo” revela como a “Bíblia como Literatura” moldou o imaginário intelectual da elite do rock brasileiro no século XX.
O Brasil é um dos poucos países onde uma canção baseada integralmente em um texto sagrado cristão se tornou um hino secular absoluto, cruzando barreiras entre ateus, agnósticos e religiosos.
Enquanto o mercado gospel atual muitas vezes foca no “eu” e nas conquistas individuais, a obra da Legião Urbana resgata o altruísmo radical de Paulo, servindo como uma crítica involuntária à comercialização da fé e à perda de conteúdo doutrinário nas rádios religiosas atuais.