Biblia

“Paz, irmão”: por que evangélicos chamam pessoas sem parentesco de irmão e irmã — e como esse costume nasceu no cristianismo primitivo

O tratamento vem da linguagem familiar do Novo Testamento, ganhou força nas primeiras comunidades cristãs e continua expressando pertencimento e igualdade.

Por Pr. Bruno Valadão • Publicado em 09/10/2026 às 11h37 • Atualizado em 09/10/2026 às 11h52
Fiéis de diferentes idades se cumprimentam após um culto em uma igreja evangélica
O tratamento “irmão” e “irmã” expressa pertencimento à comunidade cristã — imagem ilustrativa.

“A paz do Senhor, irmão.” A frase parece natural para quem cresceu em uma igreja evangélica, mas pode confundir quem visita um culto pela primeira vez. As pessoas não têm o mesmo pai nem a mesma mãe, muitas acabaram de se conhecer e, ainda assim, se tratam como família.

O costume não nasceu no pentecostalismo brasileiro. Ele vem da linguagem do Novo Testamento e da maneira como as primeiras comunidades cristãs compreenderam sua identidade: pessoas reunidas pela fé passavam a formar uma família espiritual.

“Irmãos” é um dos nomes mais comuns para os cristãos no Novo Testamento

Os autores do Novo Testamento usam repetidamente a palavra grega adelphoi para se dirigir aos integrantes das comunidades. Em muitos contextos, o termo inclui homens e mulheres e pode ser traduzido como “irmãos e irmãs”.

Paulo abre ou desenvolve diversos argumentos chamando seus leitores de irmãos. A palavra também aparece em Atos e em cartas atribuídas a outros autores. Não funciona apenas como gentileza: identifica o grupo como uma comunidade de pessoas ligadas pela mesma fé.

A igreja passou a ser descrita como uma casa

No mundo antigo, a família era uma das estruturas centrais de proteção, herança, trabalho e identidade. Quando textos cristãos falam em adoção, filhos de Deus, casa da fé e irmãos, usam relações conhecidas para explicar um novo pertencimento.

Isso não apagava todas as diferenças sociais. As primeiras igrejas reuniam pessoas de origens, idades e posições econômicas distintas. A linguagem familiar estabelecia um ideal: diante de Deus, ninguém deveria receber mais valor por status, riqueza ou origem.

O O Fuxico Gospel já mostrou famílias que também compartilham laços de sangue e carreira, em uma lista de famosos gospel que muita gente não sabia serem parentes. O “irmão” usado no culto amplia essa imagem para além da genealogia.

Jesus colocou a obediência a Deus acima do parentesco biológico

Nos Evangelhos, Jesus pergunta quem são sua mãe e seus irmãos e aponta para os que fazem a vontade de Deus. A cena não elimina a família biológica. Ela redefine os limites da comunidade: o compromisso com Deus cria vínculos que não dependem de sobrenome.

Outros textos seguem a mesma lógica. O Novo Testamento chama Deus de Pai, descreve Cristo como aquele que reúne muitos irmãos e apresenta os cristãos como membros de um só corpo. A linguagem familiar e a corporal se complementam.

O costume não pertence a uma única denominação

Batistas, assembleianos, presbiterianos, metodistas e outras tradições usam “irmão” e “irmã”, embora a frequência varie. Em algumas comunidades, o tratamento aparece em quase toda conversa. Em outras, é reservado ao ambiente litúrgico ou foi parcialmente substituído pelo primeiro nome.

Católicos também usam linguagem semelhante em ordens religiosas e movimentos, mas “irmão” e “irmã” podem ter funções institucionais específicas. No universo evangélico brasileiro, o uso cotidiano se tornou especialmente visível com a expansão das igrejas pentecostais e a presença desse vocabulário nos cultos transmitidos por rádio e televisão.

Chamar de irmão não significa concordar em tudo

A metáfora familiar descreve pertencimento, não uniformidade. As cartas do Novo Testamento foram escritas justamente porque comunidades chamadas de “irmãos” enfrentavam conflitos sobre doutrina, comportamento, comida, dinheiro e liderança.

O termo, portanto, carrega responsabilidade. Se o outro é irmão ou irmã, deve ser tratado com cuidado, correção justa e solidariedade. Usar a palavra sem essa postura transforma uma imagem de comunhão em simples hábito verbal.

Por que alguns visitantes estranham o tratamento?

Fora da igreja, “irmão” costuma indicar parentesco biológico, amizade íntima ou gíria. Um visitante pode imaginar que todos se conhecem há anos. Também pode achar o tratamento artificial quando aplicado imediatamente.

Comunidades acolhedoras explicam a linguagem sem impor intimidade. O uso funciona melhor quando vem acompanhado de apresentação, respeito a limites e interesse real pela pessoa. Ninguém precisa revelar problemas pessoais apenas porque foi chamado de irmão.

“Irmão” resume uma teologia em uma palavra cotidiana

O costume permaneceu porque traduz uma ideia teológica em uma relação cotidiana. Em vez de falar apenas em membresia, o cristianismo primitivo usou a imagem de uma casa onde Deus é Pai e os fiéis pertencem uns aos outros.

Esse tipo de permanência linguística também aparece em práticas que atravessaram séculos. Uma reportagem reuniu sete coisas citadas na Bíblia que cristãos ainda fazem sem perceber a origem.

Quando um evangélico diz “irmão” ou “irmã”, então, repete uma das autodefinições mais antigas da comunidade cristã. A palavra não prova proximidade biológica; afirma que a fé criou um vínculo que deveria produzir acolhimento, igualdade e responsabilidade mútua.

Fontes consultadas: ocorrências de ἀδελφοί no Novo Testamento, estudos de história social do cristianismo primitivo e léxicos de grego bíblico.

Mais sobre o assunto



Logo Fuxico Gospel

DIGITE SUA BUSCA

Este site utiliza cookies essenciais para garantir o funcionamento adequado. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade.