As divergências e o debate ético no campo evangélico conservador ganharam forte projeção nacional neste início de novembro.
O pastor batista, teólogo e influenciador Yago Martins, criador do canal Dois Dedos de Teologia, teceu duras críticas ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) após o parlamentar relacionar a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos 184 municípios do Ceará aos recentes episódios de violência atribuídos a facções criminosas no estado. As declarações do religioso foram destaque em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo no último domingo (1º).
“Plantou, colheu” e a reação teológica
A controvérsia teve início quando Nikolas Ferreira compartilhou, em sua conta na rede social X (antigo Twitter), duas notícias paralelas: uma informando o resultado eleitoral do segundo turno na totalidade das cidades cearenses e outra relatando ataques promovidos pelo crime organizado no estado. Na legenda, o parlamentar limitou-se a escrever: “Plantou, colheu”.
A insinuação de que os eleitores teriam responsabilidade direta pela criminalidade e por isso mereciam passar por sofrimentos foi veementemente rebatida por Yago Martins.
“Seu comportamento revanchista envergonha o evangelho que você diz seguir”, respondeu o pastor ao deputado. Em entrevista, Yago reforçou seu descontentamento com o uso da fé para endossar atitudes de deboche contra a população.
“Me incomoda ver um funcionário público eleito pelo povo zombar do sofrimento das pessoas porque elas votaram diferente […] Esse tipo de postura revanchista é o total oposto daquilo que é o núcleo mais fundamental do evangelho, que é justamente o amor ao próximo, a misericórdia”, pontuou o teólogo, ressaltando que sua indignação partiu justamente de uma figura que compartilha do mesmo espectro religioso e de pautas conservadoras.
Análise do bolsonarismo, perseguições e o voto em Flávio Bolsonaro
Conhecido por suas análises acadêmicas e por ser autor do livro A Religião do Bolsonarismo, Yago Martins aproveitou o espaço para alertar o segmento evangélico sobre o aparelhamento ideológico da fé e o avanço de campanhas de ódio e boicotes contra trabalhadores ou artistas por preferências eleitorais.
Para o pastor, pessoas de diferentes visões políticas podem professar a fé cristã sem serem rotuladas como inimigos espirituais.
“Conseguiu arrastar a direita inteira de forma que mal existe direita no Brasil, existe bolsonarismo […] Não tem como viver numa cultura de revanchismo e ódio e dizer que isso representa um tipo de política cristã em qualquer nível”, ressaltou Yago, que também avaliou a recente viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos após a derrota presidencial, classificando-a como um fato delicado, embora ponderando que a celeridade das decisões judiciais contribua para narrativas de perseguição.
Apesar das críticas contundentes à conduta de lideranças do movimento, Yago revelou que, caso estivesse em seu domicílio eleitoral e tivesse votado no segundo turno de 25 de outubro, teria optado por Flávio Bolsonaro “com muita dor no coração”, motivado prioritariamente por preocupações com as composições e futuras indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF).
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