Um gesto que deveria simbolizar honra e gratidão acabou provocando polêmica e debate acalorado no meio evangélico. Fiéis e usuários das redes sociais foram surpreendidos após viralizar a informação de que a Igreja Batista Nacional (IBN), em Várzea Grande–MT, teria destinado uma quantia milionária para financiar a casa de descanso de seu pastor jubilado, Osvaldo Coutinho, em Chapada dos Guimarães.
A homenagem, que inicialmente foi celebrada nas redes como prova de reconhecimento ao pastor por mais de 40 anos de ministério, rapidamente se transformou em questionamento público sobre transparência, princípios bíblicos e uso dos recursos da igreja.
Diante da repercussão, a própria IBN confirmou que realmente arcou com os custos de parte da obra. Porém, o valor oficial ainda permanece em sigilo. Em nota enviada pelo advogado Leonardo Girundi, representante da igreja e do atual pastor-presidente Osvaldo Junior — que é filho do pastor beneficiado — o montante seria de aproximadamente R$ 1 milhão, e não R$ 1,4 milhão como apontavam postagens virais.
A igreja afirma que o procedimento seguiu o estatuto interno e foi aprovado por diretoria e conselho administrativo, sem participação direta dos membros, já que o modelo de governança da instituição concentra decisões financeiras nesse colegiado. Ainda segundo a defesa, nenhum valor foi entregue em mãos ao pastor jubilado; os pagamentos foram feitos diretamente à construtora responsável pela obra, correspondente à fase estrutural da casa — conhecida como “parte cinza”.
A declaração fiscal do religioso teria sido atualizada para incluir o benefício, numa tentativa de demonstrar lisura no processo. No entanto, o fato de o beneficiado ser pai do atual líder espiritual da igreja levantou questionamentos entre fiéis e críticos sobre possível conflito de interesses — ponto que não foi comentado pelo pastor Osvaldo Junior.
Enquanto a Convenção Batista Nacional, à qual a IBN é filiada, permanece em silêncio, lideranças de outras denominações manifestaram incômodo. O teólogo Renato Ruiz Lopes, da Primeira Igreja Batista de Botucatu–SPPastor, classificou a prática como incompatível com o espírito do Evangelho e criticou o acúmulo patrimonial por líderes religiosos.
“A lógica de Cristo é repartir. Quando líderes acumulam e recebem benefícios desse porte, ignoram o exemplo de Jesus e a realidade de quem passa necessidade”, afirmou.
Lopes ainda rebateu mensagens em defesa da doação que tentam silenciar críticas chamando opositores de “fariseus” e “rebeldes”.
“Esse tipo de postura é autoritária. Questionar não só é legítimo — em certos casos, é até prova de integridade espiritual”, pontuou o pastor.
A discussão segue dividindo opiniões e evidencia, mais uma vez, o quanto a gestão financeira de igrejas e a relação com patrimônio pessoal de líderes continuam sendo temas sensíveis no meio evangélico.