SALVADOR (BA) — O pastor e cantor Séo Fernandes provocou forte repercussão ao questionar um dos paradigmas mais enraizados no meio evangélico: a separação rígida entre música gospel e música secular.
Em entrevista ao Maquir Podcast, o artista baiano afirmou que essa divisão não encontra respaldo bíblico e acaba produzindo um efeito contrário ao propósito cristão de alcançar pessoas fora da igreja.
Para Séo, a demonização automática da arte que não utiliza linguagem religiosa atribui ao mal um protagonismo indevido. Segundo ele, parte do discurso evangélico contemporâneo acaba reforçando mais a figura do diabo do que a centralidade de Deus, criando uma teologia do medo que afasta, em vez de aproximar.
O pastor contestou interpretações recorrentes de textos bíblicos usados para justificar o afastamento da cultura popular.
Ele citou Romanos 12 como um exemplo de passagem frequentemente aplicada de forma distorcida para sustentar o isolamento artístico. Na avaliação de Séo Fernandes, a Bíblia não autoriza a rejeição automática da produção cultural, mas convida ao discernimento.
Ao falar sobre sua formação musical, o cantor destacou a influência de grandes nomes da música brasileira, como Djavan, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Para ele, a igreja perdeu parte de sua identidade ao desprezar a riqueza rítmica nacional e adotar modelos quase exclusivos importados de tradições estrangeiras.
Discernimento, não demonização
Casado há 15 anos e defensor dos valores familiares, Séo fez questão de diferenciar liberdade cultural de relativismo moral.
Ele afirmou que não consome conteúdos que exaltam práticas incompatíveis com sua fé, mas alertou que isso não autoriza classificar toda expressão artística externa ao ambiente religioso como maligna. Em sua visão, honestidade estética e coerência pessoal são princípios mais saudáveis do que a simples rotulação espiritual.
Identidade e conversão
Irmão de Saulo Fernandes, um dos nomes mais conhecidos do axé, Séo afirmou que sua conversão não exigiu o apagamento de sua história cultural. Pelo contrário, ele defende que a fé cristã deve dialogar com a cultura sem se submeter a ela, mas também sem rejeitá-la por medo.
As declarações do pastor reacenderam um debate intenso nas redes sociais, dividindo opiniões entre defensores de uma liturgia mais rígida e aqueles que acreditam em uma presença cristã ativa e saudável na cultura contemporânea.
O posicionamento de Séo Fernandes expõe uma tensão cada vez mais visível no evangelicalismo brasileiro: a disputa entre isolamento religioso e engajamento cultural consciente.
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