Muito antes dos Grammys e das turnês internacionais, a música de Kirk Franklin dependia de latas e jornais recolhidos por uma mulher idosa no Texas.
Gertrude, a tia que o criou, reciclava o material para pagar as aulas de piano do menino. Kirk tinha 4 anos quando começou a estudar.
Aos 11, ele já dirigia um coro de adultos na igreja.
Uma criança criada pela tia
Kirk Franklin nasceu em Fort Worth e foi abandonado pela mãe ainda pequeno. Sem conhecer o pai, foi acolhido por Gertrude, a quem mais tarde chamaria de “o anjo que me criou”.
Em entrevista à revista britânica Keep The Faith, o músico confirmou que a tia vendia latas para custear as aulas. Outro depoimento registra que ela também recolhia jornais.
O investimento não era apenas financeiro. Gertrude o levava à igreja e estimulava uma rotina em que música e fé se tornaram inseparáveis.
O piano virou companhia
Em entrevista exibida pela PBS, Kirk contou que cresceu praticamente acompanhado pelo piano. Quando criança, subia ao telhado à noite para conversar com Deus, cantar e chorar.
Ele relaciona essa intimidade ao vazio deixado pela ausência dos pais. A fé passou a ser compreendida como uma relação de pai e filho antes que o artista pudesse organizar em palavras os traumas da infância.
O talento apareceu cedo. Kirk aprendeu a tocar de ouvido, desenvolveu leitura e escrita musical e passou a conduzir outros cantores quando ainda era criança.
Das latas aos discos de platina
Em 1993, Kirk Franklin and The Family levou a combinação de coro, hip-hop e R&B a um público muito maior. O álbum permaneceu por semanas nas paradas gospel e alcançou certificação de platina.
O reconhecimento posterior não apaga a origem. A biografia oficial do artista ainda destaca Gertrude e registra que o piano começou aos 4 anos.
A história dialoga com a de Eli Soares, que atravessava uma avenida com a marmita na mochila antes de gravar naquele mesmo endereço. Em ambos os casos, alguém sustentou um começo que parecia pequeno demais para anunciar o futuro.
Cada aula paga com material reciclado era uma aposta de Gertrude. Décadas depois, a música de Kirk Franklin transformaria aquela aposta doméstica em parte da história do gospel contemporâneo.