BRASÍLIA (DF) — As eleições realizadas neste domingo, 4 de outubro de 2026, mexeram profundamente em uma engrenagem que durante décadas funcionou com alta eficiência na política nacional: a capacidade das grandes igrejas evangélicas de transformar sua força religiosa e sua sólida estrutura institucional em votos diretos para candidatos endossados pelas denominações.
O fenômeno, contudo, não significa que o eleitor evangélico tenha perdido relevância numérica ou abandonado o debate político, mas revelou um recuo expressivo na capacidade de transferência de votos por parte de cúpulas tradicionais.
Derrotas históricas na Igreja Universal e na Família de R.R. Soares
Na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada pelo bispo Edir Macedo, o recado das urnas foi contundente. A denominação chegou ao pleito com quatro deputados federais pelo Rio de Janeiro identificados com a instituição — Rosangela Gomes, Luis Carlos Gomes, Jorge Braz e Marcelo Crivella, todos filiados ao Republicanos. Na nova configuração da bancada fluminense, apenas Luis Carlos Gomes garantiu a reeleição.
Nem mesmo o peso familiar e a trajetória de Marcelo Crivella foram suficientes para assegurar espaço na política institucional.
Sobrinho de Edir Macedo, ex-prefeito do Rio e ex-senador, Crivella disputou uma das vagas ao Senado e terminou o pleito com pouco mais de 500 mil votos (cerca de 3,4%), ficando muito distante dos vitoriosos Carlos Portinho e Carlos Jordy, ambos do PL, que superaram a marca de 3,9 milhões de sufrágios.
Cenário semelhante enfrentou a Igreja Internacional da Graça de Deus: os dois filhos do missionário R.R. Soares que concorreram no Rio — Marcos R.R. Soares na Câmara dos Federais e Filipe R.R. Soares na Assembleia Legislativa (Alesp) — terminaram na suplência pelo PSDB.
Reveses nas Assembleia de Deus em vários estados
A tradicional Assembleia de Deus de Madureira também sofreu perdas significativas. O deputado federal Otoni de Paula (PSD), um dos nomes de maior exposição no Rio de Janeiro nos últimos anos e ligado a lideranças da denominação, não conseguiu renovar seu mandato após se distanciar do bolsonarismo e se aproximar da base governista. Em São Paulo, Cezinha de Madureira e Oseias de Madureira também ficaram de fora da nova legislatura.
O reflexo da dispersão de votos atingiu outras praças importantes. Em Pernambuco, o pastor Eurico (PSDB), ligado à Assembleia de Deus liderada pelo pastor Ailton José Alves, falhou na tentativa de assegurar o quinto mandato na Câmara dos Federais, assim como Rebeca Lucena, filha do pastor Roberto José (Assembleia de Deus em Abreu e Lima).
Na Paraíba, o pastor José Carlos de Lima, vice-presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), viu seu filho, Isaac Venerando, registrar apenas 2.169 votos na disputa estadual.