Biblia

De George Washington a Donald Trump: por que presidentes dos Estados Unidos usam uma Bíblia na posse — e o que acontece quando um deles não coloca a mão no livro

A Constituição americana exige apenas o juramento presidencial; o uso da Bíblia nasceu como tradição em 1789 e já teve exceções marcantes.

Por Pr. Bruno Valadão • Publicado em 09/10/2026 às 11h32 • Atualizado em 09/10/2026 às 11h52
Bíblia aberta durante cerimônia de posse presidencial diante do Capitólio dos Estados Unidos
Bíblia aberta diante do Capitólio dos Estados Unidos — imagem ilustrativa.

A imagem se repete há mais de dois séculos: o presidente eleito ergue a mão direita, enquanto um familiar segura uma Bíblia diante dele. O gesto parece obrigatório, mas não é. A Constituição dos Estados Unidos determina as palavras do juramento presidencial e permite “jurar ou afirmar”; não exige livro religioso, passagem bíblica nem a frase “que Deus me ajude”.

A Bíblia entrou na cerimônia como tradição. George Washington inaugurou o costume em 30 de abril de 1789, e presidentes posteriores transformaram exemplares familiares ou históricos em uma forma de contar a própria história. Em 2025, porém, Donald Trump voltou ao cargo sem encostar a mão nos dois volumes que Melania Trump segurava. O juramento continuou plenamente válido.

A Constituição exige o juramento, não uma Bíblia

O artigo 2º da Constituição americana traz o texto que o presidente deve recitar antes de assumir o cargo. É essa declaração pública — e não o objeto colocado diante dele — que produz o efeito constitucional.

Por isso, usar uma Bíblia é uma escolha cerimonial. O livro pode expressar fé pessoal, memória familiar ou ligação simbólica com outro período da história. Também é possível fazer o juramento sem nenhum volume. Na prática, a cerimônia combina uma tradição religiosa com uma obrigação essencialmente civil.

Washington criou o costume com um livro emprestado às pressas

Na primeira posse, em Nova York, os organizadores perceberam pouco antes do juramento que não havia uma Bíblia disponível. Um exemplar de uma loja maçônica próxima foi buscado e aberto em Gênesis 49:13. O National Park Service registra que a escolha da página ocorreu ao acaso, porque o livro chegou no último momento.

Washington colocou a mão sobre a Bíblia e criou um precedente visual poderoso. A partir dali, o gesto passou a representar solenidade e compromisso diante de Deus para muitos americanos, embora nunca tenha sido incorporado como requisito legal.

Uma Bíblia pode ligar presidentes separados por séculos

Alguns exemplares ganharam biografia própria. A chamada Bíblia de Lincoln foi usada na posse de Abraham Lincoln, em 1861. Barack Obama escolheu o mesmo volume em 2009 e voltou a usá-lo em 2013, quando o colocou ao lado de uma Bíblia que pertenceu a Martin Luther King Jr.

Donald Trump também recorreu à Bíblia de Lincoln. Em 2017, ela foi empilhada com o exemplar que sua mãe lhe dera na infância. A escolha de um objeto histórico também transmite uma mensagem política: associa o novo presidente à memória e aos valores atribuídos a uma figura anterior.

O uso de objetos e expressões bíblicas também ajuda a explicar como referências das Escrituras permanecem na vida pública. O Fuxico Gospel já mostrou costumes que a Bíblia menciona e muitos cristãos repetem sem perceber.

Nem todos os presidentes fizeram o juramento sobre o livro

John Quincy Adams usou um livro de leis em 1825, enfatizando o caráter constitucional do compromisso. Theodore Roosevelt não utilizou livro algum em 1901, quando assumiu às pressas após o assassinato de William McKinley. Em 1963, dentro do avião presidencial após a morte de John F. Kennedy, Lyndon B. Johnson jurou sobre um missal católico que estava disponível a bordo.

Essas exceções não diminuíram a autoridade de nenhum governo. Elas confirmam a regra: a legitimidade vem do juramento previsto na Constituição, não do suporte físico escolhido para acompanhá-lo.

Trump tinha duas Bíblias diante dele em 2025, mas não tocou nelas

Na segunda posse de Trump, em 20 de janeiro de 2025, Melania segurou a Bíblia familiar e a Bíblia de Lincoln. Fotos e vídeos da cerimônia mostram que o presidente manteve a mão esquerda ao lado do corpo enquanto repetia as palavras ditadas pelo presidente da Suprema Corte, John Roberts.

O Comitê Conjunto do Congresso para Cerimônias de Posse registrou oficialmente os dois exemplares utilizados. A ausência do toque, confirmada pelas imagens, gerou perguntas nas redes sociais, mas não criou qualquer problema jurídico. A Constituição não manda pôr a mão em uma Bíblia.

O gesto é religioso, familiar e político ao mesmo tempo

Em uma cerimônia televisionada para o mundo, cada escolha comunica alguma coisa. Uma Bíblia de família fala de origem e continuidade. Um exemplar histórico produz associação com outro presidente. Duas Bíblias podem reunir essas duas mensagens na mesma imagem.

Isso não transforma os Estados Unidos em um Estado confessional nem muda o texto constitucional. Mostra, porém, como símbolos religiosos permanecem presentes na cultura pública americana. Para o leitor interessado na circulação do texto sagrado por diferentes línguas e povos, vale conhecer também a história de uma tradução bíblica que levou quase 30 anos para ficar pronta.

O que acontece se o presidente não usar a Bíblia?

Nada muda na validade da posse. O presidente precisa recitar o juramento ou fazer a afirmação prevista pela Constituição e assumir o compromisso de preservar, proteger e defender o texto constitucional. Bíblia, missal, livro de leis ou nenhum livro são escolhas de forma.

A força da tradição explica por que a ausência do gesto chama tanta atenção. Mas justamente as exceções — de Theodore Roosevelt a Donald Trump em 2025 — deixam claro que o centro da cerimônia é a palavra empenhada pelo presidente, não o objeto diante dele.

Fontes consultadas: Constituição dos Estados Unidos, Biblioteca do Congresso, National Park Service, Comitê Conjunto do Congresso para Cerimônias de Posse e registros fotográficos da Associated Press.

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