O nome Assembleia de Deus está em fachadas de templos de cidades grandes, bairros periféricos e comunidades do interior. Ele parece acompanhar a igreja desde o primeiro culto no Brasil, mas a cronologia mostra outra história: o trabalho começou em Belém em 1911 e só adotou oficialmente a denominação atual em 1918.
Durante os primeiros anos, o grupo era conhecido como Missão da Fé Apostólica. A expressão “Assembleia de Deus” chegou depois, quando o pentecostalismo já se organizava internacionalmente e igrejas nos Estados Unidos usavam o equivalente em inglês.
Daniel Berg e Gunnar Vingren chegaram ao Brasil em 1910
Os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren desembarcaram em Belém do Pará em 19 de novembro de 1910. Eles haviam vivido nos Estados Unidos e chegavam influenciados pelo avivamento pentecostal que se espalhava naquele país.
Os dois passaram a frequentar uma igreja batista. Divergências sobre a experiência pentecostal, especialmente a doutrina do batismo no Espírito Santo com falar em línguas, produziram uma ruptura. Em 18 de junho de 1911, o novo grupo iniciou o trabalho que seria reconhecido como origem da Assembleia de Deus no Brasil.
A primeira comunidade se chamou Missão da Fé Apostólica
O nome inicial não foi uma criação brasileira isolada. “Apostolic Faith” já era usado por grupos ligados ao movimento pentecostal nos Estados Unidos. A expressão destacava a intenção de recuperar experiências atribuídas à igreja do livro de Atos.
Em Belém, “Missão da Fé Apostólica” identificou o grupo durante seus primeiros anos. Isso significa que as pregações, conversões e primeiras expansões não aconteceram sob a placa “Assembleia de Deus”.
“Assemblies of God” surgiu nos Estados Unidos em 1914
Em abril de 1914, líderes pentecostais reunidos em Hot Springs, no Arkansas, organizaram o General Council of the Assemblies of God. O objetivo era criar cooperação entre igrejas, sustentar missões e estabelecer uma estrutura comum sem eliminar por completo a autonomia local.
A expressão já aparecia antes em congregações americanas. Registros históricos das Assembleias de Deus dos Estados Unidos apontam que o pastor T.K. Leonard utilizava “Assembly of God” em sua igreja em 1912 e propôs um nome com essa formulação durante a organização do conselho.
O nome foi registrado no Brasil em 1918
Em janeiro de 1918, o trabalho de Belém passou a usar oficialmente “Assembleia de Deus”. A escolha aproximava a igreja brasileira do nome adotado pelo movimento americano, sem transformar a instituição nacional em simples filial administrativa.
A mudança ocorreu cerca de sete anos depois do início da comunidade no Pará. Por isso, dizer que Daniel Berg e Gunnar Vingren “fundaram a Assembleia de Deus” é correto como síntese histórica, desde que se entenda que o nome atual não estava presente no primeiro dia.
O que a expressão quer dizer?
Em linguagem comum, assembleia é uma reunião de pessoas convocadas para uma finalidade. “De Deus” indica pertencimento. O nome pode ser entendido, portanto, como comunidade ou reunião pertencente a Deus.
A escolha também conversa com o vocabulário do Novo Testamento. A palavra grega ekklesia designa uma assembleia ou comunidade reunida e costuma ser traduzida como “igreja”. Expressões equivalentes a “igreja de Deus” aparecem nas cartas de Paulo.
Isso não significa que uma única passagem bíblica tenha batizado formalmente todas as Assembleias de Deus. O nome resultou da linguagem bíblica usada por comunidades pentecostais e de uma decisão organizacional tomada no contexto americano do início do século XX.
A mesma placa não criou uma única administração nacional
Com a expansão pelo Brasil, igrejas e ministérios se organizaram em convenções. A Assembleia de Deus tornou-se uma família denominacional ampla, não uma rede inteiramente controlada por um único presidente ou escritório.
Templos com o mesmo nome, portanto, podem pertencer a ministérios e convenções diferentes. A história das estruturas nacionais, disputas e divisões é detalhada em uma reportagem sobre CGADB, CONAMAD e outras organizações assembleianas.
Por que o nome se espalhou tanto?
A expansão ocorreu por redes de parentesco, migração, trabalho de evangelistas e formação de congregações locais. Comunidades podiam começar em casas, salões e bairros sem depender de grandes estruturas. O nome comum dava identidade a grupos geograficamente distantes.
Ao longo do século XX, a Assembleia de Deus se tornou uma das maiores expressões do protestantismo brasileiro. O crescimento multiplicou acréscimos à placa — nomes de ministérios, campos e convenções —, mas preservou as três palavras adotadas em 1918.
Uma igreja mais antiga do que o próprio nome
A sequência histórica é clara. Primeiro vieram os missionários em 1910; depois, a ruptura e o início do trabalho em 1911; em seguida, a organização americana de 1914; por fim, o registro brasileiro de 1918.
A história da Assembleia de Deus começa antes da adoção do nome atual. A denominação foi escolhida quando um movimento ainda jovem buscava identidade, cooperação e uma linguagem capaz de atravessar fronteiras.
Fontes consultadas: histórico oficial da Assembleia de Deus em Belém, Flower Pentecostal Heritage Center e arquivos históricos do General Council of the Assemblies of God, nos Estados Unidos.